Inteligência artificial avança nas empresas, mas produtividade depende de mudanças no trabalho

Mão humana e mão robótica digitam juntas em notebook, simbolizando o uso da inteligência artificial no trabalho.


A inteligência artificial está mudando a maneira como empresas produzem relatórios, atendem clientes e organizam informações. O que ainda não acompanha essa transformação, em muitos casos, é a própria rotina dos escritórios. Ferramentas capazes de executar tarefas em segundos convivem com processos burocráticos, aprovações demoradas e atividades que poderiam simplesmente deixar de existir.

No Brasil, essa diferença começa a aparecer nos números. A pesquisa TIC Empresas 2025, divulgada pelo Cetic.br em junho de 2026, revelou que 17% das empresas brasileiras já utilizavam inteligência artificial, contra 13% no ano anterior. Entre as grandes organizações, o índice chegou a 50%, enquanto nas pequenas passou de 10% para 15%.

O avanço mostra que a tecnologia está deixando de ser exclusividade das grandes companhias. Mas existe uma distância entre experimentar um assistente digital e transformar essa experiência em ganhos financeiros.

Um levantamento da PwC divulgado em 2026 identificou um contraste importante: apenas 9% das empresas brasileiras redesenham seus processos para incorporar IA, enquanto essa prática alcança 56% entre as organizações líderes globais no uso da tecnologia. O estudo ouviu 1.217 executivos de 25 setores e aponta que as empresas com melhores resultados têm aproximadamente o dobro da probabilidade de reorganizar seus fluxos de trabalho, em vez de simplesmente acrescentar ferramentas.

A diferença pode ser percebida em situações comuns. Uma equipe de marketing consegue utilizar IA para preparar campanhas, resumir pesquisas e organizar calendários de conteúdo. Se cada material continuar passando pelas mesmas etapas de aprovação, porém, parte do tempo economizado desaparece na burocracia. O mesmo acontece em departamentos financeiros que automatizam planilhas, mas ainda precisam transferir informações manualmente entre sistemas.

Para Bruno Omeltech, administrador, contador e CEO da empresa de educação corporativa Omeltech, acelerar uma atividade não significa necessariamente melhorar o funcionamento de uma organização.

“Existe uma diferença grande entre automatizar uma tarefa e transformar a maneira como o trabalho é realizado. Se a empresa coloca inteligência artificial sobre um processo cheio de etapas desnecessárias, ela pode ganhar velocidade sem resolver os gargalos que limitam produtividade e tomada de decisão”, afirma.

O fenômeno também revela uma mudança no comportamento profissional. Saber utilizar ferramentas digitais está se tornando parte da rotina de diferentes carreiras, mas a capacidade de avaliar informações, identificar erros e decidir o que realmente precisa ser feito continua relevante.

O Work Trend Index 2026, da Microsoft, reforça essa percepção. A pesquisa, que ouviu 20 mil trabalhadores que utilizam IA em dez países, incluindo o Brasil, identificou que fatores organizacionais, como cultura, apoio dos gestores e desenvolvimento profissional, apresentam associação mais forte com os resultados percebidos da tecnologia do que características individuais isoladas.

Há também uma preocupação crescente com o uso de ferramentas não autorizadas no ambiente corporativo. Uma análise publicada pela Reuters em outubro de 2026 chamou atenção para funcionários que recorrem a contas pessoais de IA para resolver demandas profissionais, criando riscos relacionados à exposição de dados confidenciais e à confiabilidade das respostas. O desafio das empresas passa a incluir a oferta de ferramentas adequadas e orientações claras para seu uso.

Esse cenário ajuda a entender por que a discussão sobre produtividade já não se resume a produzir mais em menos tempo. Uma atividade reduzida de quatro horas para uma pode liberar espaço para atendimento, planejamento e decisões estratégicas, desde que a empresa consiga reorganizar as responsabilidades da equipe.

Omeltech defende que a identificação de tarefas repetitivas e gargalos deve anteceder a escolha da tecnologia. Em projetos de educação corporativa, sua empresa desenvolveu iniciativas de capacitação em competências digitais, IA e dados para profissionais de telecomunicações, além de atividades voltadas ao uso da tecnologia na gestão da construção civil.

Para negócios menores, a transformação pode começar por tarefas bastante conhecidas: respostas recorrentes a clientes, conferência de documentos, organização de pedidos ou consolidação de informações. A oportunidade está em identificar quais atividades consomem mais tempo, testar mudanças e comparar os resultados, sem abrir mão da revisão humana quando necessária.

Os dados de 2026 indicam que a adoção da inteligência artificial está avançando mais rapidamente do que a reorganização das empresas brasileiras. A próxima diferença competitiva pode estar menos na quantidade de ferramentas contratadas e mais na capacidade de decidir quais tarefas ainda merecem ocupar o expediente.

Comentários

Postar um comentário

Abrir formulário de comentários

Leia Mais